"Say'n english" - O Louco Poliglota | OBMM
Tempo estimado de leitura: 7:50 min.
Entrevistando o sobrevivente
— Fale quando quiser! Se quiser falar também...
— Irei falar! Só...
— Quer água?
— Não, obrigado! Só vamos começar logo isso!
— Claro!
O jovem adulto estava sentado na poltrona, de frente para mim. Çuácêpé estava sentado ao meu lado no sofá. Entre o sofá e a poltrona se encontrava uma mesinha sobre o tapete. Havia um jarro d'água e copos, frutas e biscoitos. Ele não se sentia tão à vontade, mas concordou em ser entrevistado.
— Jorge?
— Sim!
— Quer fazer a entrevista ainda?
— Sim, senhora! Eu estava pensando por onde iria começar a falar. Éramos cinco... Todo mundo tava doido pra ir pra Copacabana. Juntamos dinheiro por muito tempo, planejávamos a viagem há muito tempo.
— Quanto tempo, mais ou menos?
— Dois anos. Eu que tive a ideia de fazer isso. Minha namorada me apoiou e meus outros amigos também.
— Qual era o nome dos seus amigos?
— Lindsey era minha namorada, Caio era meu melhor amigo, Marlon e Maria eram namorados.
— Caio tinha namorada?
— Ele pensava em ter mais lá pra frente. Ele estava cursando a faculdade de medicina. Dizia que só tinha tempo pra estudar e trabalhar, que namorar demandava tempo... Então depois de muito tempo, a gente conseguiu ajeitar as coisas lá em São Paulo e viemos pro Rio. Tínhamos alugado uma casa para nós no Leme. Então...
Jorge baixou a cabeça.
— O dono da casa... Ele, ele... Ele se... apresentou pra gente, deu a chave da casa... Como já estava de noite, decidimos ficar em casa. A gente procurou formas de se divertir, brincar de verdade ou desafio, pique-esconde... Até então, tudo estava indo bem... Mas quando eu fui acordado pelo Caio que estava desesperado, descobri que não estávamos mais na casa, estávamos no que parecia ser um manicômio abandonado, e Lindsey... — Ele pôs as mãos no rosto.
— Jorge, não precisa continuar. Podemos parar por aqui se quiser.
— Doutora, por favor! — Ele respirou fundo e retirou as mãos do rosto. — Caio e eu vagamos pelo lugar escuro pra cacete à procura deles três. Algumas portas estavam trancadas ou emperradas. Numa dessas portas, no segundo andar, a gente ouviu uma voz masculina distorcida dizer coisas em inglês.
— "Say'n english", não foi? — questionou Çuácêpé, e Jorge confirmou acenando a cabeça.
— Mas nenhum de nós sabia falar ou sequer entender o inglês. Em seguida, eu ouvi um grito feminino e congelei. Era a voz da Maria. Caio queria confrontar o assassino, queria salvá-la, mas eu queria fugir. Então corri e deixei o Caio para trás. — Suspirou. — Meu melhor amigo... Já sozinho, continuei vagando à procura de uma alma viva. Então fui para o refeitório por haver luz. Lá, eu encontrei o Marlon com a boca aberta e sem a língua; a língua estava cozinhando na panela. — Fungou o nariz. — Sem esperanças de fugir, me sentei e fiquei aguardando ser morto, mas eu não esperava que Lindsey fosse aparecer lá. Estava nua, com as pernas trêmulas, com a vagina sangrando... Me levantei em vão. O assassino a jogou no chão e... e... enfiou a mão dentro dela e... eu não fiz nada! — Pranteava. — Eu não fiz porra nenhuma!
Eu não sabia o que dizer ao jovem, apenas fiquei em silêncio.
— Eu abandonei o Caio, não pude salvar o Marlon, não pude salvar Lindsey... Não sei porque estou vivo. Quem merecia estar vivo era o Caio, a Lindsey, o Marlon, a Maria... Eu deveria estar morto.
— Jorge, eu sinto muito!
— Jorge, você teve infelizmente o azar de conhecer O Louco Poliglota. — disse o Çuácêpé. — Tenho uma notícia boa e uma ruim. A boa é que ele não gosta de matar covardes; a ruim é que sua expectativa de vida foi diminuída pela metade.
— Eu não me importo! Minha vida acabou! Eu tenho o direito de tirar minha própria vida, não tenho?
— Jorge! — intervi. — O Louco Poliglota pode ser detido!
— Eu estive de olho nesse monstro há muitos anos. Sei que ele sempre foge de um lugar para outro para continuar assassinando pessoas que ele julga serem ignorantes por não saberem inglês ou outras línguas. Mesmo se você soubesse inglês, ele iria querer que você falasse em alemão, depois em espanhol, depois em mandarim, depois em árabe... Ele sabe absolutamente todas as línguas do planeta e até idiomas próprios que ele criou. Você foi um dos poucos e será o último sobrevivente. Te prometo que mais ninguém morrerá!
O Encontro
— Você tirará a vida de mais ninguém!
— Você só veio aqui na minha casa para dizer isso? You are very so pathetic!
— You cannot kill me! Become it a monster and... show your real face!
Me preparei, fechando os punhos.
— Not here.
Ele veio em minha direção.
— I zoí sou teleiónei edó (Sua vida acaba aqui!)!
— Oúte kan (Não mesmo!)!
Desviei e desferi um soco em seu pescoço. Logo, um buraco em sua barriga se abriu; era um portal escuro que me sugou rapidamente para dentro.
Pela primeira vez, eu estava dentro do tal manicômio abandonado.
História
Nasceu sem um nome definido por sua mãe, que fez um pacto com o homem encapuzado dos olhos brancos. Foi separado de sua mãe, vendo o rapaz do capuz como seu possível mentor, um pai. Não foi para um orfanato e sim, para um manicômio desconhecido e abandonado, escuro e solitário.
Ele chamava o seu mentor de: Najustí (o "Na" seria de nativo e o "justí" seria de justiceiro). Em outras palavras, um justiceiro nativo que parecia querer atormentar a população brasileira com seus poderes. Por isso os povos indígenas não eram exatamente afetados, por isso eu não era exatamente afetado!
O Louco Poliglota passou a ser chamado assim por mim em 2009, quando fez suas primeiras vítimas, em Fernando de Noronha. Sempre poupava as mais covardes e fugia de um certo local para o outro, atuando também nos litorais de Amapá, Pará, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul (atuando em 17 estados por mais de dez anos).
Em outras palavras, atuava em litorais e em lugares com praias que eram do território brasileiro. Pelo menos, o resto do Brasil estava a salvo.
Nunca sequer houve um indígena morto por criaturas invocadas.
O Louco Poliglota tinha uma aparência variável. Por muitas vezes, seu tom de pele era trocado, o tamanho do seu corpo mudava... Não possuía nome, muito menos uma aparência clara e definitiva. Não seria surpreendente se sua real aparência fosse o que eu estava vendo bem na minha frente: uma aparência réptil, olhos grandes e totalmente escuros, era maior do que eu e bem forte.
A Batalha
— Sterben (Morra!)!
— Ich werde nicht für dich sterben (Eu não vou morrer pra você!)! — Defendi seu soco.
— Govorite po-russki (Fale em russo!)!
— Vy bol'she ne budete ubivat' nevinnykh (Você não vai mais assassinar pessoas inocentes!)! — Desviei de seu chute, e ele se tornou mais agressivo e enfurecido.
— Jnupiric na voith lalamimco avê nerá'con ahlulfá mï synuçécara pai's!
Que língua era essa? Levei um murro no rosto e fiquei atordoado. Ele pressionou meu pescoço, me ergueu e me lançou para longe, me fazendo rolar e ficar de bruços.
— Jnupiric na voith lalamimco avê nerá'con ahlulfá mï synuçécara pai's! — repetiu, e eu ainda estava no chão. — Aqui é meu lar! Aqui é meu mundo, minha dimensão! Eu vou continuar assassinando pessoas e você não vai poder fazer nada, apenas vai poder assistir o povo brasileiro desaparecer aos poucos! O Brasil é dos monstros, o Brasil é nosso!
Ele pisou na minha cabeça, me impedindo de se mover.
— Você está protegendo um povo que não acredita na salvação, Çuácêpé? Veja bem, o que O Entediado está fazendo de errado ao matar imbecis com comportamentos imbecis e com ideias imbecis? O que aconteceu em São Paulo foi realmente uma desgraça. Aqueles jovens apenas estavam vivendo suas vidas, mas de repente, apareceu alguém que incomodou a jovenzinha pateta e ela não gostou nem um pouco de ser encarada por um "homem hétero top". É isso que você protege, Matias? — Ele riu. — So pathetic! Você está protegendo imbecis que, na primeira oportunidade, pisariam em você! Na primeira oportunidade, te acusariam de crimes que você nem cometeu!
— Nem todos são assim, é isso que você tem que entender!
— Mas o que você tem que entender é que os que não são assim pagam pelos imbecis! Hahahaha! Por que você quer salvar essas pessoas? Você apenas está irritando o meu mentor! E outra, achou mesmo que eu fosse tão fraco?
— Eu prometi pra um jovem que isso tudo iria terminar! A namorada dele tinha um futuro, o melhor amigo dele tinha um futuro... Os amigos deles... Sem dó nem piedade, você matou todos!
— Não se esqueça que ainda estou te pisando e posso facilmente estourar seu crânio!
O Louco Poliglota estava deitado e eu pisava em sua cabeça.
— ... e não se esqueça que eu tenho poder o suficiente para devastar o Brasil!
— C-c-como você fez isso, seu... filho da puta? Aqui é meu mundo, meu lar!
— Tudo o que eu queria saber era quem estava por trás de invocar vocês. Assim que eu entrei aqui, fiquei sabendo tudo sobre você. As vítimas que você fez não tinham esse poder, somente pessoas especiais como eu e Najustí. Porém, eu posso te poupar se você me fizer um favor.
— E qual seria?
— Me diga mais sobre esse seu mentor.
— Eu prefiro morrer!
Suspirei.
— Com todo prazer!
Pisei em seu crânio e voltei para a realidade.
Doutora...
— Onde está o Jorge?

Comentários
Postar um comentário