O Chorão | OBMM
Tempo estimado de leitura: 7:15 min.
I
Um sujeito comum como qualquer outro brasileiro, Crispim Norespe veio de uma família humilde no bairro de Ponta Grossa, em Maceió. Seu sonho de criança era se tornar professor, aprendendo a ler com o apoio dos pais e do irmão. Havia nascido no início dos anos 90. Clarinho e sorridente, perdia aos poucos a timidez conforme crescesse, desenvolvendo um charme e um carisma notável, sendo apaixonado por crianças.
Na infância, brincava de escolinha com as crianças do bairro além de ter sido incentivado a correr atrás dos seus sonhos.
Duas décadas depois, em 2013, com os seus 22 anos de idade, Crispim ainda se formava em pedagogia na UFAL, namorava, trabalhava em uma padaria, estava bem de vida. Como estava próximo de se formar, ele havia combinado com Jane que iriam se casar e se mudar para Arapiraca depois de se formarem.
Jane também quase se formava em odontologia.
Depois de se formarem, eles se casaram e se foram para Arapiraca como tudo planejado, isso em 2015. Um tempo depois, Crispim conseguiu preencher uma vaga numa das escolas da cidade, começando a dar aula para o público adolescente a partir de 2016, com os seus 25 anos.
Meses depois, sua esposa foi gravemente agredida por um paciente e teve que ser levada às pressas para o hospital. Crispim dava aula nesse momento, quando recebeu a notícia e ficou desesperado.
Quando começou a dar aula, por alguma razão, o seu charme e carisma não encantavam as turmas, pensando que a juventude atual não era a mesma juventude de sua época, o que o fez sentir-se desmotivado. Mesmo assim, continuou seu trabalho, ainda que fosse alvo de piadas de certas turmas sem bom senso.
Não agradava muita gente, agradava somente poucos e dava aula para esses poucos. Quando era semana de prova, muitos ficavam de recuperação em Português e/ou ficavam abaixo da média no bimestre, o que irritou muitos alunos. O ódio apenas aumentou.
Então, quando Crispim foi correndo ao hospital, ficou sabendo que Jane havia sofrido fraturas nas costelas e trauma na cabeça, tendo uma parada cardíaca em seguida; não resistiu.
Até então, somente a direção e a coordenação sabia da situação do Crispim, e sua turma, antes disso, foi contar à diretora quem era o professor de Português de verdade.
No dia seguinte, Crispim contatou a escola e comunicou que não iria comparecer por ter perdido a esposa, quando ficou sabendo que havia sido acusado de pedofilia pela turma inteira, e todo o colégio já estava sabendo, já tendo sido denunciado. Diante de tanta escuridão, a sua resposta para a diretora foi chorar.
Tudo estava indo muito bem, sua vida parecia estar tranquila, mas tudo mudou tão rápido ao ponto de ele não conseguir se adaptar a tempo. Estava sendo investigado pelo Ministério Público, havia perdido o emprego, a notícia havia se espalhado pelo município e por toda Alagoas, se tornando notícia nacional... Sua família queria distância...
Como iria provar sua inocência? Não havia advogado sequer que faria isso. Uma turma inteira o acusou de abusar de Ana Rita que, depois da acusação, não compareceu ao colégio.
Como qualquer outra história já existente, esta também tinha seus furos, e como qualquer outra história já existente, as pessoas perdiam tudo primeiro para depois conseguirem provar a inocência, mas até esse ponto, suas vidas já poderiam ter sido completamente destruídas.
Num país em que uma assassina de pais seria solta depois de muitos anos para cumprir o restante da pena em regime aberto, também havia um suposto abusador que perdeu tudo o que tinha, sendo perseguido em todo canto até fugir para a floresta.
Queria morrer em paz e nada parecia haver solução, mas apareceu de repente o seu advogado revoltado, um caiapó dos olhos brancos brilhante e encapuzado que lhe deu seu nome: Najustí.
— Crispim, você agora é meu! — Sua voz era rouca e muito velha. — Aliás, não precisa provar inocência alguma, apenas precisa se defender de pessoas que não buscam entender o seu lado e preferem acreditar numa história inventada e manipulada. É isso que a sociedade brasileira se tornou! É por isso que essa sociedade irá ser dissipada por mim e por meus monstros! É o seguinte, Matias Çuácêpé irá aparecer para você em algum momento e tentará o ajudar. Deixe ele te ajudar! Bom que eu ganho tempo para criar os Monstros Líderes. Há pessoas neste país que vão procurar a verdade e ficar ao seu lado, mas as ignore, pois é no Matias quem você deve focar!
A floresta foi clareada por um brilho intenso que desaparecia gradualmente. Crispim então percebeu que Najustí havia desaparecido, mas que sua vontade de voltar a viver normalmente sua vida havia retornado, como se ele não se importasse mais com o passado.
II
Em Arapiraca, tentou levar uma vida normal, mas como tudo havia sido arruinado, lhe restou servir ao Najustí. Queria conhecer mais a cidade, indo para um ponto de ônibus onde foi julgado pelas pessoas que o queriam fora dali. Crispim não se importou e ficou à espera do ônibus.
Quando o ônibus chegou, ninguém queria deixá-lo entrar e que caso ele entrasse, todos iriam sair do veículo. Crispim entrou e percebeu que nem todas as pessoas o julgavam, mas não se importou mesmo assim. Ignorou todos, permanecendo no seu canto enquanto chorava por tudo. O amor de sua vida havia falecido por causa de um paciente louco e sua própria família negava-se a recebê-lo em casa.
As pessoas que não queriam entendê-lo se uniram para retirá-lo do ônibus à força enquanto as que estavam do lado dele o protegiam e criticavam a atitude do grupo organizado. Crispim não queria ser protegido e por mais que ignorasse todos, mandou que as pessoas que acreditavam nele saíssem do veículo.
Elas obedeceram, a porta do ônibus fechou-se sem o motorista estar no banco e as pessoas que haviam saído apenas viram as janelas serem pintadas de vermelho ao ponto de não conseguirem mais acompanhar o que acontecia no lado de dentro.
Esse evento ficou conhecido como: O Ônibus Massacrado.
"Ele só mandou a gente sair, então a gente saiu do ônibus. Tinha um pessoal que, inclusive, estava querendo expulsá-lo, mas então aconteceu o que aconteceu. Ele não estava armado, parecia estar muito indefeso, retraído... Quando olhei nos olhos dele, eu senti que os olhos dele diziam o seguinte pra mim: 'eu perdi tudo! Não me restou mais nada!'. Depois eu vi tanto sangue jorrar que o pessoal tudo correu, mas eu fiquei. Eu estava em choque. Pensei se realmente um humano conseguiria fazer o que ele fez. Acho que não, acho que é só mais um monstro mesmo. Dessa vez, ele me olhou no fundo dos olhos e foi embora sem dizer sequer uma palavra. Não me matou por sei lá, mas acredito que não me matou por eu ficar do lado dele, mas agora... Agora eu vejo que ele é só mais um monstro que o Çuácêpé vai matar! Essa droga de monstros tem que acabar! Tá por todo o Brasil! Brasileiro precisa de sossego! Aquilo foi horrível! Só piorou a situação dele!", relatou um entrevistado.
Como de costume, Çuácêpé foi convocado pela prefeitura de Arapiraca para conversar com Crispim Norespe. Em outras palavras, matá-lo. Matias então foi até a casa do monstro e conversou com ele, querendo entendê-lo.
— Najustí me falou que você iria aparecer para mim em algum momento! Até que não demorou muito.
— Me explique sua situação.
— Eu perdi a porra da minha esposa, a porra da minha família, a porra do meu emprego e a porra da minha vida! Isso tudo em uma semana! Te juro que eu não queria massacrar aquelas pessoas, mas o sentimento ou algo estranho que está dentro de mim que me fez cometer atrocidades! Nunca abusei de ninguém, é tudo mentira! Isso me dá ódio! Eu queria ter tirado minha própria vida, mas Najustí apareceu e...
— Hm.
— Eu só queria minha vida de volta, mas sei que isso nunca mais será possível!
— Não quer provar sua inocência?
— Pra quê? Não me importo mais com isso! Apenas saiba que eu sirvo de distração pra você demorar pra alcançar Najustí.
— O quê?
— Você está perdendo tempo comigo. Enquanto isso, Najustí está criando os Monstros Líderes. Eu só queria mo...
Matias percebeu rapidamente que Crispim pôs as duas mãos no pescoço, como se estivesse sufocando. Passou a tossir, arregalou os olhos e abriu a boca, saindo vapor de dentro. Esse vapor parecia ser sua alma, pois seu corpo envelhecia e apodrecia ao mesmo tempo e rapidamente até sobrar somente os ossos.
Arapiraca poderia ficar em paz.
Um mês depois, porém, Ana Rita foi encontrada morta em seu próprio quarto; havia somente restado os ossos.
Nesse momento, Çuácêpé investigava uma entidade em outro estado do Brasil e a população estava começando a não crer mais em Matias.
Todos pareciam pressentir o momento sombrio chegar, enquanto a sociedade brasileira decaía lentamente.

Comentários
Postar um comentário