A Boca do Dentista | OBMM
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(Chamada 1)
— Pois não, Nicolly? Como vai a recuperação?
— Dr. Uhgo, eu tive um sonho. Um sonho meio estranho. Meio estranho não, muito estranho! A sua boca... Quando você abriu ela... Você não tava de máscara, então... Desculpa, é que eu tô ansiosa! Ontem, eu ainda tava sentindo a dor depois do siso ter sido removido, mas quando acordei, senti algo dentro da minha boca me incomodar.
— Uhum!
— Então eu fui no espelho do banheiro e abri a boca. Meus dentes estão crescendo! Uma hora depois, voltei no banheiro e eles pareciam estar maiores. Por que isso tá acontecendo?
— Teria como você vir aqui para eu avaliá-la?
(Chamada 2)
— Emergência. — pronunciou-se uma mulher do SAMU.
— Minha paciente precisa ser levada com urgência pro hospital! Dentes afiados estão nascendo por todo o corpo através dos ossos dela e estão perfurando a pele!
— Como, senhor?
— Droga, os "espinhos" estão surgindo e crescendo nos ossos ao ponto de perfurarem a pele, você me entende?
— Senhor, queria te salientar que não aceitarei isso como uma emergência! O que o senhor está fazendo vai contra o que acreditamos.
— Como é que é? Você acha que eu tô brincando? Eu sou um doutor, eu sou um dentista, cacete! Tragam logo a porra de uma ambulância pra cá!
— Como se chama?
— Uhgo Leinos, mas se você acha que tudo isso é pegadinha, então desliga!
— Com todo prazer, senhor!
— É dr. Uhgo!
[...]
Em seu consultório, um cigarro era colocado em sua boca, sua mão ia ao bolso, pegando um isqueiro e acendendo o tabaco, sugando, o retirando da boca e expirando a fumaça enquanto ouvia uma música antiga que remetia ao mundo não precisar acabar com fogo, mas prosperar com o amor.
Olhou para o seu mocho manchado de sangue que pingava no chão. Em seguida, sorriu ao ver os 206 "espinhos" que haviam crescido e perfurado sua paciente de dentro para fora. Continuou a fumar, balançando a cabeça, acreditando que a esperança do brasileiro havia desaparecido há muito tempo.
— Nicolly, eu sinto muito, mas não me levaram a sério! Bem, quer beber alguma coisa?
Nicolly não respondeu.
O rapaz bonitão e sedutor saiu da sala, voltando segundos depois com whisky e dois copos, pondo um sobre o mocho, adicionando o líquido.
— Sabe o que eu vou fazer, Nicolly? Quebrar todas as clínicas odontológicas. Por quê? Porque eu quero! Mudando de assunto, você quer gelo? Se mudar de ideia, eu trago.
Seu corpo mexia-se, como se estivesse dançando ao som da música, aproximando-se do e colocando o copo no balcão, adicionando o álcool.
— Nada melhor do que uma comemoração antes de realizar mais experimentos sem sentido de cruéis. Obrigado, Nicolly!
Seus óculos deixavam sua feição mais cruel e parecida com de pessoas que faziam experimentos científicos no século XX. Seu cabelo ruivo ia até o ombro e seus olhos eram claros, possuindo uma barba média. Conseguia disfarçar sua crueldade atuando, fingindo...
O experimento consistia em unir cloridrato de mepivacaína com o seu poder que era nomeado como: pura maldade. Quando a anestesia era aplicada no paciente, dr. Uhgo passava a ter 100% de controle do corpo da vítima, podendo fazê-la sofrer aos poucos com o crescimento lento dos dentes ou fazê-la sofrer rapidamente, como foi o caso da Nicolly.
Ele sempre oferecia um chá para os seus pacientes antes de mostrar quem realmente era. As pessoas sempre aceitavam e, quando estavam drogadas, viam o dr. Uhgo abrir a boca em 45°. A broca, assim como o sugador, o boticão e a agulha saíam diretamente de sua garganta e entravam em contato com a boca do paciente, aplicando a anestesia.
Controlava as ferramentas com a língua e as fazia aparecer em qualquer momento, não necessitando de ferramentas fora de seu corpo.
Nicolly foi a sua primeira vítima.
Depois de ter feito a primeira vítima, dr. Uhgo mudou-se para a capital de São Paulo, mostrando para todos que ele havia chegado para acabar com a concorrência. Quando via pessoas entregando panfletos de clínicas odontológicas, o rapaz acabava por fazê-las irem para casa.
Dr. Uhgo então entrava em cada clínica e dizia que um dentista de verdade havia chegado em São Paulo, causando terror em muitos dentistas com o passar do tempo. Com isso, foi se apresentando para a população como a verdadeira solução para os problemas bucais.
O resto era história.
[...]
— A que devo a honra, mestre Najustí? Quer um pouco de bebida?
— Eu aceito.
Ele foi buscar, voltando para a sala odontológica com uma garrafa e dois copos. Adicionou o álcool nos dois, vendo Najustí remover o capuz da cabeça careca, exibindo seu enrugado rosto familiar e pintado de preto ao redor dos olhos. Na sua testa, havia um símbolo pintado à cor vermelha, representando o fogo. Suas argolas nas orelhas pareciam ser de madeira e seu odor era de mato queimado. Seus olhos eram totalmente brancos e seu olhar intimidador também era de impor respeito.
Najustí bebeu um pouco de whisky.
— Sabe o que eu acho, doutor Uhgo? Existem tantas lendas em diversos países, mas são só lendas. O pessoal morre de medo de lendinhas estúpidas! Invasão alienígena... Que piada! Enfim, você vai escrever um livro pra mim e vai distribuir pras pessoas. Você é um sujeito brilhante! — Bateu de leve no braço dele.
— Obrigado, mestre! Fico lisonjeado!
— Nesse livro, você vai escrever e vai explicar o motivo de os brasileiros não resistirem a nós. Se resistirem, vão morrer, mas do contrário, vão poder viver e lutar ao nosso lado. Eu já estou ficando bem velho pra fazer as coisas. Sabe o que eu vou fazer depois? Descansar pra sempre. Não morro até o Brasil ser nosso!
— E o Matias?
— Vou me revelar pra ele no futuro. Ele é forte e poderoso, mas eu sou o mais experiente dos 23 Grandes Herdeiros existentes. — Bebeu mais um pouco de whisky. — Sabe o que eu acho dos vilões que só pensam em dominar o mundo? Estúpidos! Eles vão fazer o que depois de dominar o mundo? Que objetivo mais sem graça!
— Sim, mestre! Hehehe!
— O que vai fazer depois que o Brasil for nosso?
— Vou focar em escrever livros e focar nos experimentos.
— Bem, o nome do livro que você vai escrever vai ser "O Brasil dos Monstros Modernos".
— Achei interessante, o nome.

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