Os Encrenqueiros | OBMM
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I
Em 2013...
— Nós vamos dividir Jequié.
Barricadas (veículos grandes como caminhões, por exemplo) eram colocadas por todo Rio de Contas que atravessava a cidade, surgindo então a Jequié Norte (área segura) e Jequié Sul (área restrita/extremamente perigosa).
— Em seguida, nós vamos matar quem ousar fugir daqui e não se render.
Uma pessoa foi atingida nas costas, caindo no chão; outra foi fuzilada e outras desistiram.
— Vamos tornar essa cidade a mais próspera do país!
Nos becos de Jequié Sul, fugitivos eram espancados e estuprados. Nas ruas, pessoas que queriam fugir estavam à mercê de seres humanos com poderes sobre-humanos. Esses monstros eram mais fortes do que assaltantes tradicionais e fizeram de Jequié Sul uma fortaleza.
Eram conhecidos como: Os Encrenqueiros.
Ao sudeste se encontrava o distrito Itaigara, administrado por Messias Sorrisão, ficando responsável por vigiar as fronteiras e zelar pela segurança da cidade. Ao norte de Itaigara se encontrava Mandacaru, administrado por Rebeca Sinhá, ficando responsável por fortalecer Jequié, sequestrando cientistas de fora para investir na infraestrutura, se envolvendo em diversas missões em prol da evolução da cidade.
Em Cansanção (que ficava próximo ao rio), o distrito era bastante vigiado e perigoso, mas ninguém morava nele. Diversas armadilhas haviam sido implementadas, se tornando uma zona de morte.
O distrito Km-3 era administrado por assaltantes comuns (principalmente por Léo Trimões) e era o centro da cidade, onde as pessoas de bem trabalhavam em diversos setores desde alimentos até roupas. Era onde havia comércio, centro comercial, pontos turísticos... Era como qualquer outro centro de cidades. Já o Km-4 era onde Michel Jaguar vivia, e ele foi o principal por tornar Jequié Sul perigosa depois da divisão.
Ele ficava responsável por tudo e era exatamente Michel quem falava sobre tornar Jequié Sul a cidade mais próspera do país.
II
Em 2012, meses antes...
— Michel, fica mais um pouco na cama.
Ele terminava de pôr o cinto em sua calça, vestindo uma camisa de manga curta que não escondia o quão malhado era. Estava todo suado dentro daquele quarto abafado que nem o ventilador dava conta. Olhou para sua mulher e se aproximou dela, sentando-se na cama e chegando bem próximo de seu rosto, mas não a beijou.
— Rebeca, eu tô com vontade de fazer merda.
Olhando para os seus lábios escuros e grossos, Rebeca sorriu.
— Eu tô contigo nessa! O que vamos fazer, hein?
Michel sorriu, tocando os lábios rosados dela, um selinho.
Um tempo depois, buzinou três vezes, e seu amigo tatuado saiu de seu fusca velho e enferrujado na rua de terra, entrando no veículo do Michel que pisou fundo.
— E aí, Sorrisão! — cumprimentou Michel.
— Bora fazer merda pra caralho! — Messias já utilizava o soco inglês com a lâmina.
— A maior merda! — replicou Rebeca.
— Só falta o Léo.
— Vou ligar pra ele. — Messias Sorrisão levou o celular ao ouvido, ouvindo chamar. — Léo, se prepara que a gente vai fazer merda! Tamo indo te buscar!
Quando estavam todos reunidos, após um tempo viajando por Jequié, Michel estacionou próximo a uma delegacia e ficou esperando seu alvo aparecer.
— É nesse horário que ele sai, tenho certeza. — disse Michel, olhando para trás. — Como é que foi o domingo de vocês?
— Fiquei filosofando. — respondeu Léo.
— Filosofando!? — indagou Messias, começando a rir. De fato, sua voz era bem-humorada. — Que perda de tempo!
— Já se perguntou por que você é tão irritante às vezes?
— E você já se perguntou por que filosofa? Você ganha o que filosofando? Filosofar dá dinheiro? Nós é mais que isso, ô tabacudo!
— E o seu domingo, Messias?
— Ah, eu fui pra farra, peguei a mulher dos outro, foda-se... Tenho culpa não. Ela me falou que tava tristinha e que o marido não dava atenção, aí não perdoei e meti-lhe a vara. E o de vocês dois, como é que foi?
— Fomos pra cachoeira e depois fomos pro Pico do Mara. — respondeu Rebeca.
— Cês vive uma vida romântica mesmo, hein! — comentou Messias. — E o moleque vai nascer quando?
— Não tô grávida ainda.
E ficaram em silêncio.
Rebeca olhou para o cara que ela gostava e vice-versa. Tinha o semblante de homem durão, tendo a cabeça raspada. Ele também admirava a beleza dela, mexendo em seu cabelo curto como o cabelo masculino, olhando para o piercing em seu nariz. Logo abaixo dele, seus lábios.
— Cês dois têm que entender que essa mulher aqui é um anjo! — A beijou e olhou para eles. — Sem essa rapariga aqui, eu não vivo não.
— O que é que você falou de mim?!
— Ôxe, te chamei de rapariga, visse? Qual o problema? Em Portugal, eles falam desse jeito.
— Aqui é Brasil! — esbravejou Rebeca.
— É só um elogio! Calma!
— Vocês vão casar?
— A gente tem que resolver problemas, depois a gente vê. Mas é isso! — Michel olhou para a delegacia, vendo o homem sair. — É ele!
— Certeza?
— Absoluta.
Messias abriu a porta do carro e foi discretamente aproximando-se do homem, virando à esquina.
Minutos depois, Messias voltou correndo para o carro que foi ligado a tempo.
— Pisa! Pisa! Pisa!
Michel pisou e saiu do local, fazendo o pneu cantar.
— E aí, como é que foi? — indagou Michel.
— Tá lá no chão. Agora, qual é a próxima merda que a gente vai fazer?
— Messias, por que a gente não vai visitar a rapariga que você comeu?
— Pra quê?
Um tempo depois, a campainha foi tocada. Messias ficou olhando para os lados. Era bem conhecido em Barro Preto por conta de suas tatuagens religiosas visíveis na sua pele parda, sorriso e calvão de cria. Havia bastante gente na rua, fosse num bar, em frente às casas ou igrejas. Estava com os braços para trás.
— Você vai aceitar Jesus, ô Léo?
— Vou não! Já tenho muitos pecados e não sei se tem volta mais não. Meus pais fez tudo o que pôde, mas prefiro essa vida mesmo. Fazendo o bem ou o mal, geral vai morrer mesmo. Geral vai ter o mesmo destino.
— Tem medo de ir pro inferno?
— Eu não! Nunca vou me arrepender, sabe por quê? Porque minha crença é essa, cê entende? A filosofia é pra todo mundo, até pra gente. Eu tomei uma decisão que é errada pra muita gente, mas pra mim foi a certa. Ninguém pode me convencer do contrário. Se tentar, eu atravesso o desgraçado na bala! — Sua voz soava niilista para quem a ouvisse, assim como seu rosto que expressava o caos e a escuridão, sempre de boné e com a aba torta para trás.
Sua pele era clara e sua personalidade era sombria.
Eles olharam para o lado quando a porta se abriu para o Messias, que viu um homem sério ao invés da mulher.
— Quem é você?
— Quando você tava fora, sua mulher foi pra farra, conheci ela lá, ela me trouxe pra cá e fiz ela implorar por leite na cara.
— Como é que é, babaca? — Ele empurrou Messias, que reagiu rapidamente e lhe socou o pescoço com o soco inglês, cortando sua garganta em seguida e entrando no carro.
— Pisa! Pisa! Pisa!
Michel pisou e saiu do lugar, fazendo o pneu cantar.
— Era ele que eu queria matar mesmo! Hahaha! Mas, pera aí, só eu que vou matar? Cês têm que matar também, visse?
— Nós vamos! — retrucou Rebeca.
— Tá, mas a próxima merda é qual?
Um tempo depois, estacionou próximo à saída do estacionamento do atacarejo.
— Nós vamos esperar aqui, Léo. Será que você daria conta? — questionou Rebeca.
— Não duvide. — Léo fechou sua jaqueta e saiu do carro, indo em direção à entrada do atacarejo, encontrando seguranças, muitos clientes e funcionários nos caixas. Vagando pela mercearia, as pessoas consumiam os produtos como se fossem água, correndo para a fila enorme. Foi para a seção de biscoitos.
Lá, pegou um pacote e foi para a fila, mas sem paciência de esperar, ele passou na frente de todo mundo sem pensar duas vezes e foi em um dos caixas. As pessoas começaram a reclamar e o gerente (que estava na frente de loja) se aproximou de Léo.
— Por favor, volte para a fila! Eu vi você passar na frente de todo mundo!
— É só um biscoito! — argumentou Léo. — Esses lixos egoístas estão com carrinhos cheios de compra e eu tô só com a porra de um produto!
— Mas aí você podia ter tido a gentileza de perguntar se podiam deixar você passar na frente.
Léo suspirou e olhou para o operador.
— Pode passar o meu biscoito, por favor?
— Mas, ehm...
— Eu mando nessa porra aqui! Passa logo esse biscoito!
— Você tá ficando maluco, é? — gritou o gerente, e os seguranças foram aproximando-se lentamente.
— E você abaixa esse tom que eu não sou tua puta não! E você passa logo esse biscoito porque eu já tô perdendo a paciência!
— Não passa o biscoito não! — mandou o gerente.
— Não vai passar não, né? — Rapidamente, Léo levantou a jaqueta e pegou a 9mm, atirando na cabeça do gerente e fazendo todo mundo gritar. — Passa logo essa porra!
— Tá, tá! Só não me mata! — E o operador com o sangue do gerente no rosto e no uniforme passou o biscoito. — Deu R$8,99.
— Faz o seguinte, você quer que falte R$8,99 no seu caixa ou você quer morrer?
— Eu, eu... — Fungava. — ... quero viver!
— Boa!
Léo recebeu o cupom fiscal e encarou pessoas amedrontadas, indo embora correndo até o carro, que cantou pneu outra vez.
— Caralho, Léo! O que tu fez lá dentro, seu abestalhado maldito? — perguntou Messias, em um tom brincalhão, rindo. — Tudo isso por um pacote de biscoito crocante que dá pra comer com nachos!? Além de filósofo bandido, você também faz propaganda pra marcas famosas sem ganhar nada em troca!?
— Hm. — Léo abriu o grande pacote, e o cheiro se espalhou rapidamente pelo carro. — Querem?
— Tô dirigindo, mas guarda um pouco pra mim!
— Eu tô sem fome! — respondeu Rebeca.
— Eu quero, ô Léo!
— Volta lá e pega pra você!
— Agora, a próxima merda vai ser...
De repente, no cruzamento, um carro pintado de azul em cima e branco embaixo surgiu, bloqueando a passagem e fazendo Michel pisar no freio. Mesmo assim, pegou a lateral da viatura em cheio, batendo a cabeça no volante com tanta força que apagou. Rebeca sangrava e os outros dois também estavam desacordados.
— Michel!
Ouviu uma voz rouca e muito velha o chamar.
— Michel!
Recebeu água na cara, estando sentado e amarrado num lugar desconhecido, mas que lembrava uma garagem velha e suja, com cheiro de gasolina. Olhava diretamente para o velho homem indígena da pele enrugada.
— Prazer, me chamo Najustí e fiquei interessado em vocês!
Um tempo depois, no grande dia...
— Prontos pra entrar pra história de Jequié?
— Prontos! — responderam os três, e todos ergueram os copos cheios de cerveja, brindando.
III
Naquela noite de 2013, o final de janeiro havia sido tranquilo para a maioria da população de Jequié, por mais que a cidade tivesse sido alvo de criminosos identificados e foragidos, escondendo-se ao norte, em Baetê, um pequeno vilarejo que ficava entre uns 15 à 17 quilômetros de distância do centro. Lá, planejaram o que iriam fazer no grande dia por meses.
Depois de tudo planejado, eles retornaram à Jequié, e Messias Sorrisão foi deixado em frente ao posto policial da PRF. Sem camisa e somente com as partes debaixo, se aproximou da e arrebentou a cerca com socos poderosos que assustaram os policiais.
Messias invadiu o posto, e os policiais já apareceram mirando nele.
— Ninguém precisa sair machucado. — avisou Messias, que correu em direção à viatura e levou diversos tiros, mas nenhuma bala fez efeito. — Se vocês me derem a chave, não vou precisar matar ninguém.
Messias então conseguiu a chave.
— Se quiserem chamar reforços, podem chamar, mas vai todo mundo morrer!
Com a viatura, Messias foi para o posto de gasolina mais próximo, fechando a rodovia com o carro, parando o trânsito. Ele entrou em diversos veículos e assassinou à sangue frio os civis, utilizando outros automóveis para criar uma barricada da qual ninguém poderia ultrapassar ou quebrar, fechando completamente a estrada e colocando avisos que eram uma advertência ameaçadora.
Depois de fechar a estrada, ele continuou a fazer barricadas que se estenderam para o norte, indo até o Rio de Contas, começando a pôr veículos grandes e pesados no lado esquerdo do rio para o lado direito, cercando o Km-4 e o Km-3, Cansanção, Mandacaru e Itaigara, tornando também o ponto panorâmico Mirante da Torre restrito.
Ele levou de 7 a 8 dias para fazer isso.
Nesse período, reforços foram chamados e os quatro já estavam preparados para isso.
Michel deixou Léo em Km-3.
Com os poderes que tinha e depois de praticar, ele invadiu diversos lares, anunciando que Jequié estaria passando por mudanças radicais a partir daquele momento e que todos deveriam cooperar, pois quem resistisse, iria morrer. Em outras palavras, ou se tornava assaltante ou morreria, podendo escolher ser um escravo ao invés de assaltante ou morrer.
Muitas se renderam e a minoria se revelou ser do crime.
Foi para os outros quatro distritos, fazendo diversas se renderem, mas ninguém havia morrido até então.
Enquanto isso, Rebeca Sinhá dava cobertura tanto para o Messias Sorrisão quanto para o Léo Trimões e Michel Jaguar distribuía armas roubadas para os assaltantes, escolhendo onde iria ser seu complexo, optando por um hotel como um lugar onde iria ser discutido sobre a política da nova Jequié Sul.
Seria inútil caso os reforços fossem por terra, pois nem um exército os pararia. Então a força aérea foi acionada e Jequié Norte teve a população evacuada para cidades próximas como Jaguaquara, por exemplo.
Queriam bombardear Jequié, mas o que a força aérea não esperava era que eles fossem bombardeados antes de explodirem a cidade. Os Encrenqueiros já contavam com armamentos pesados e devastadores, era somente questão de tempo até terem tecnologia de ponta com os melhores cientistas do país.
Por fim, Jequié Norte não havia sido bombardeada e veículos aéreos haviam sido abatidos ao tentarem ultrapassar Mirante da Torre, que já estava bastante protegida e com barricadas impenetráveis.
Depois de conquistarem e tornarem Jequié Sul oficial, Os Encrenqueiros pronunciaram-se para a população de Jequié Norte que havia sido evacuada, dizendo que não iriam tomar Jequié Norte, mas tornar Jequié Sul a cidade mais avançada do país.
Um mês depois, em março, a população de Jequié Sul voltava a residir no local até se tornar habitável de novo.
Depois de um tempo, receberam ordens de Najustí de não chamarem tanta atenção de Matias, pois ele poderia acabar sendo convocado. A sorte deles era que Çuácêpé estava tendo que lidar com algo mais alarmante por meses: O Ator Mortal.
Aos poucos, Os Encrenqueiros tornavam Jequié Sul mais tecnológica, bonita e extremamente perigosa, se tornando alvo de curiosidade com o passar dos anos, pois ninguém sabia o que acontecia em Jequié Sul, já que as barricadas (que eram veículos) haviam sido substituídas por muros de concreto altos e extensos.
Mas algo era certo: eles haviam feito história em Jequié.

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