O Lobisomem Moderno | OBMM


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Em pleno final de ano de 2017, numa cidade que se encontrava a mais de 110 quilômetros da capital de São Paulo, Joanópolis sempre recebia Juando de braços abertos. Dessa vez foi diferente. 

Pelas noites de lua cheia, Juando sempre aparecia na praça central, de frente para a Paróquia de São João Batista. Se considerava do povo, totalmente racional e agressivo, mas cortês e educado. Lhe davam galinhas mortas e penadas, sua refeição preferida. 

Era um lobisomem de pelos dourados e olhos azuis, sendo também uma figura popular que chamava a atenção de turistas de todo o mundo. Era amedrontador quando surgiu em 2007, mas logo perceberam que Juando não era uma criatura que queria o mal. 

Enfim, era uma figura adorável para a maioria das pessoas, mas em segredo, Juando usava de sua boa reputação para coisas como: 
Chupa ou eu te mato! 

Com o passar dos anos, certas pessoas relatavam o abuso que sofriam, mas apenas foram levadas a sério quando isso começou a ocorrer com mais civis, seja homem ou mulher. Juando não apenas abusava, mas assassinava e mandava dizer a quem viu o ato que foi apenas um acidente. 

E nesse tal dia que completou 10 anos que Juando os visitava, lhe ofereceram galinhas penadas e mortas como sempre. Porém, Juando percebeu que não havia tantas pessoas assim na praça. Indignado, perguntou sobre onde estar todos, e os poucos responderam que Matias Çuácêpé já havia sido chamado para dar um fim nele. 

— Te considerávamos, Juando! Eu tinha medo de lobisomem na infância, mas aí você apareceu e me mostrou que lobisomens não precisam ser assustadores. Agora, eu ponho tudo pra fora depois do que eu e minha família sofremos nas suas mãos. Você faz jus ao que é: ruim, traiçoeiro, demônio! — esbravejou um senhor de idade. 
— Eu vou perguntar pela segunda vez, onde estão todos? 
— O mundo todo já sabe sobre você, Juando! — disse uma mulher jovem. — Você me estuprou e matou minha mãe, seu desgraçado!
 — Vão ficar contra mim!? Vão confiar em acusações vazias depois de 10 anos vindo aqui!? 
— Juando, o que fez com a minha garotinha há cinco anos atrás? Você não tem mais saída! Acabou pra você! Só te resta confessar! 

Juando suspirou e jogou seu cabelo/pelo pro lado, sentindo-se charmoso. 

— Não me culpem por algo que eu não fiz. Agora chamem o resto! 
— Não vamos chamar ninguém! 
— Esse Matias... Ele está tendo que cuidar de muitos monstros por aí. Joanópolis é a cidade do lobisomem, é a minha cidade! — bradou. — Vocês deveriam ter mais respeito por mim! Não sou como a maioria dos monstros do Najustí, sou mais humano do que muitos de vocês! Aliás, eu sei o segredo de todos os habitantes daqui. Vocês são tão sujos quanto quem vocês acusam! Vocês possuem duas escolhas: chamar o resto ou serem todos mortos. 
— Sinto lhe dizer, Juando, mas viemos preparados. 

Juando já havia percebido que o povo estava armado, percebendo também que mais pessoas estavam aparecendo, pessoas essas que contavam com o apoio da polícia e das forças armadas. 

— Não quero repetir que o mundo todo já sabe. Não precisamos dizer de novo que o Matias vai acabar com você, mas nada melhor do que um monstro morrer pelas nossas próprias mãos como um ato de justiça! 
— Meu povo... — Juando baixou a cabeça. — Justo no Dia dos Finados? Podemos esquecer tudo isso. — Não! — O povo gritou. 
— Joanópolis é uma cidade tão linda! Vocês são incrivelmente doces! Tantos momentos que passei ao lado de vocês... Estou arrasado! Eu não quero destruir meu lar, por favor! Tenho muitas lembranças boas aqui. Não me façam cometer um erro irreparável! 
— Tarde demais! — O povo negou. 
— Então me matem! 

Cego pelo ódio, o povo descarregou o pente nele. Porém, os projéteis não o atingiram, eles pararam no ar. As pessoas ficaram surpresas e já esperavam sua morte, e as balas foram ao chão. 

— Viram do que sou capaz? Não sou um lobisomem comum, não fiz pacto nenhum com o Lúcifer ou algo do tipo. Vocês realmente querem me matar, não é? Depois de tudo... Tantas lembranças... Eu me recuso! 

Na presença de muitos, Juando ergueu a cabeça para o céu e uivou. Não era um uivo assustador, era melancólico e longo, bem agudo, mas com o passar dos segundos, foi tornando-se agressivo. Todos apenas viam e se preparavam para o que poderia acontecer. 

Depois de um minuto uivando, Juando parou e olhou nos olhos de cada um, ficando de quatro, pronto para cometer atrocidades. 

Seu coração estava partido nesse instante. 

As árvores da praça começaram a mexer-se como os pelos do Juando que arrepiaram-se. Seus dentes foram exibidos e sua feição tornou-se nada amigável, começando a rosnar. 

— Seus filhos da puta traidores! 

Ele impulsionou-se para frente, saltando na direção do senhor de idade. Suas garras penetraram o peito do senhor que caiu de costas e sem vida. 

— Nicolas, seu traidor! Vá trair a sua mulher no inferno agora! 

Tentaram o parar com balas ou pancadas, sendo atingido por uma pá na cabeça. Na segunda vez que tentaram lhe bater com a pá, Juando retirou as garras do peito do senhor e segurou a pá, tomando a pá da mão da jovem mulher e lhe espancando na cabeça com a mesma pá até a morte. 

— Luana, sua vagabunda estelionatária! Eu devia ter deixado O Caçador de Estelionatários sumir com você! 

Furioso, Juando uivou pela segunda vez, trazendo consigo ventos furiosos e uma aura que desencorajou a população de tentar derrotá-lo. Passaram a fugir dele. 

— Vão fugir pra onde? Aqui será o túmulo de todos vocês, seus lixos hipócritas! 

As pessoas se afastavam rapidamente da praça, mas ninguém esperava encontrar lobos de pelos dourados e olhos azuis saindo da escuridão e as atacando rapidamente. Ele uivou para a estrutura à sua frente, reduzindo a Paróquia de São João Batista a escombros com apenas seu uivo. 

— Merda de população traíra! 

Juando começou a andar pelas ruas caóticas, vendo pessoas serem devoradas, desmembradas e partidas ao meio. Foi de casa em casa, encontrando pessoas escondidas e as decepando sem dó nem piedade. Destruiu mercados, escolas... No entanto, em menos de meia hora, ele uivou, e os lobos desapareceram, restando sobreviventes pela cidade devastada, em completa ruína. 

Juando voltou para a praça (ou o que havia sobrado dela). Árvores caídas, chão rachado e irregular, corpos e bastante sangue. 

— Minha cidade está... Em tão pouco tempo, tudo se foi... 
— É por isso que o Brasil deve ser nosso! 

Juando olhou para o lado, vendo a figura encapuzada com seus olhos brilhantes à cor branca, falando com a sua reconhecível voz rouca e bem velha.

— Nada se foi, Juando, tudo voltará em dobro, eu te prometo isso! O Brasil será dos monstros! Quanto ao Matias, ele tem muito o que fazer. É um dos Grandes Herdeiros mais experientes, mas os outros são fracos. A sociedade como um todo não merece existir! Brasil era tão bonito... Será de novo! A sua preocupação agora deve ser liderar alguns monstros, entendeu? Teremos guerra em breve. 

Najustí se afastou e desapareceu na escuridão, deixando Juando à mercê e no meio de tantas lembranças que haviam se tornado ruínas. Mas, como confiava na promessa de seu superior, Juando soltou o seu último uivo, o: Uivo Mortal, encarando o céu de Joanópolis e disparando no ar uma onda de choque que se espalhou rapidamente num raio de quilômetros, como se fosse uma bomba atômica. 

Lobisomens eram conhecidos por desaparecer com animais de fazendeiros, de dizimar gados, de se acovardar e de ser irracionais. Por outro lado, Juando era conhecido por ser O Lobisomem Moderno.

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